Assim como no esporte, uma trajetória não se constrói em um único ponto.
Existe uma pergunta que costumo fazer aos atletas com quem converso.
É simples, direta e aparentemente fácil de responder.
Qual é o seu maior objetivo no beach tennis daqui a dois anos?
Curiosamente, essa pergunta costuma provocar um silêncio maior do que eu esperava.
Alguns dizem que querem melhorar o jogo. Outros desejam disputar torneios importantes, conseguir patrocinadores ou crescer no esporte.
Respostas legítimas, sem dúvida.
Mas então faço outra pergunta:
Melhorar quanto? Disputar quais torneios? Crescer até onde?
E é nesse momento que percebo algo interessante.
Muitos atletas sabem que desejam evoluir, mas ainda não conseguiram transformar essa vontade em um objetivo claro.
E antes que alguém interprete isso como uma crítica aos jovens, preciso dizer que encontro a mesma dificuldade em pessoas de diferentes idades.
Todo mundo quer alguma coisa.
Mas nem todo mundo sabe exatamente o que quer conquistar.
E menos pessoas ainda conseguem explicar o que estão fazendo para chegar lá.
Será que estamos realmente construindo nossos sonhos ou apenas esperando que eles aconteçam?
Quando converso com um atleta, às vezes utilizo um exemplo bastante ambicioso.
Pergunto por que ele não poderia sonhar em ser o número um do mundo?
Não porque todos devam perseguir esse objetivo.
Mas porque quero mostrar a diferença entre uma vontade vaga e uma direção definida.
Ser o número um do mundo é uma ambição extraordinária, que exige talento, estrutura, dedicação, oportunidades e muitos fatores que ninguém controla completamente.
Mas, se esse for realmente o sonho de alguém, precisamos começar a conversar sobre o caminho.
Onde essa pessoa está hoje? Qual é seu nível técnico? Quais competições precisa disputar? Que dificuldades precisa superar?
De repente, a conversa deixa de ser apenas sobre um sonho.
Começa a ser sobre escolhas.
E isso muda muita coisa.
Costumo explicar essa diferença utilizando uma situação simples.
Imagine alguém que diz:
“Meu sonho é conhecer a Disney.”
Ótimo. É um desejo.
Mas em que momento esse sonho começa a se aproximar da realidade?
Quando essa pessoa decide que pretende viajar daqui a dois anos.
Agora existe uma meta, com prazo.
Depois, pesquisa os custos da viagem, calcula quanto precisa guardar por mês, organiza suas prioridades e começa a economizar.
Agora existe um plano.
E quando começa a guardar dinheiro, deixa de apenas desejar e passa a agir.
Perceba a diferença?
Sonho é aquilo que desejamos. Meta é transformar esse desejo em algo claro, com prazo e possibilidade de medir o progresso. Plano é decidir como chegar lá. E ação é começar a percorrer o caminho.
Parece óbvio, não é?
Mas quantas vezes aplicamos essa lógica aos nossos próprios sonhos?
E quantas vezes esperamos resultados sem sequer ter decidido o que precisamos fazer para conquistá-los?
Agora quero que você imagine uma história.
Um jovem começa a praticar beach tennis.
No início, tudo é novidade. A areia, a raquete, as amizades, a primeira competição.
Ele descobre que gosta daquele universo.
Começa a treinar mais, disputar torneios e sonhar com conquistas maiores.
A família se envolve. Surgem viagens, novas amizades e uma rotina cada vez mais ligada ao esporte.
Passa um ano.
Depois, dois.
Ele participou de dezenas de partidas. Conheceu pessoas, melhorou tecnicamente e viveu experiências que certamente levará para a vida.
Mas imagine que, ao final desses dois anos, alguém faça uma pergunta:
Você chegou aonde pretendia chegar?
E ele não saiba responder.
Não porque tenha fracassado.
Mas porque nunca havia definido aonde queria chegar.
Essa história é hipotética, mas representa uma situação que vejo com frequência.
Jovens que se dedicam, treinam, competem e investem tempo no esporte, mas raramente param para pensar na direção da própria caminhada.
E isso me leva a uma provocação.
Estar sempre ocupado é a mesma coisa que estar evoluindo?
Nem sempre.
Um atleta pode treinar bastante e continuar repetindo os mesmos erros.
Pode disputar muitos torneios sem identificar o que precisa melhorar.
Pode querer conquistar um patrocínio sem compreender que tipo de atleta deseja se tornar.
E não estou dizendo que devemos transformar cada minuto da vida em uma obrigação de produzir resultados.
O esporte também precisa ser diversão, amizade, descoberta e prazer.
Mas, quando alguém decide perseguir um objetivo competitivo, precisa compreender que existe uma diferença entre simplesmente participar e construir um caminho para conquistar alguma coisa.
Pense em um atleta que deseja melhorar seu saque.
Ele pode passar meses dizendo que precisa sacar melhor.
Ou pode conversar com seu treinador, identificar a principal dificuldade, estabelecer uma rotina de treinamento e acompanhar sua evolução.
Talvez o resultado demore.
Talvez seja necessário mudar a estratégia.
Mas agora existe uma direção.
E isso vale para praticamente tudo.
O esforço ganha muito mais sentido quando conseguimos compreender para onde ele está nos levando.
Existe, porém, uma parte dessa história que considero ainda mais importante.
O jovem que começou a jogar há dois anos não é mais exatamente a mesma pessoa.
Ele mudou.
Aprendeu a ganhar e perder. Desenvolveu amizades. Enfrentou dificuldades. Conheceu pessoas diferentes e precisou tomar decisões.
Talvez tenha descoberto que gosta de competir.
Ou que prefere ensinar.
Talvez tenha percebido que deseja seguir profissionalmente no esporte.
Ou que o beach tennis será uma parte importante da sua vida, mesmo que escolha outra profissão.
E tudo isso tem valor.
Porque uma trajetória não é construída apenas pelos objetivos que alcançamos.
Ela também é construída pela pessoa que nos tornamos enquanto tentamos alcançá-los.
E é aqui que entra a ideia de marca pessoal.
Quando falamos em marca, muita gente pensa imediatamente em logotipos, empresas, publicidade ou produtos.
Mas você também constrói uma marca.
Mesmo que nunca tenha pensado nisso.
Ela aparece na maneira como as pessoas se lembram de você.
No que comentam sobre seu comportamento.
Na confiança que depositam na sua palavra.
Na maneira como você reage às dificuldades, trata os adversários e respeita aqueles que caminham ao seu lado.
Um atleta pode desejar ser reconhecido pela competitividade.
Outro, pela disciplina.
Outro, pela capacidade de incentivar colegas ou pela maneira como enfrenta situações difíceis.
Mas existe uma pergunta que todos deveriam fazer:
O que estou fazendo hoje para construir a imagem pela qual desejo ser lembrado amanhã?
Porque não adianta querer ser reconhecido como alguém respeitoso se nossas atitudes demonstram o contrário.
Não adianta desejar confiança se não cumprimos nossos compromissos.
E não adianta querer ser exemplo se a única coisa que importa é aparecer quando conquistamos alguma coisa.
Sua marca pessoal não nasce quando você consegue um patrocinador.
Ela já está sendo construída muito antes disso.
Na quadra, na escola, nas redes sociais, em casa e nas relações que estabelece com as pessoas.
E, nesse processo, existe algo que considero fundamental: consistência.
Pense em uma partida de beach tennis.
Você pode fazer um ponto extraordinário.
Uma defesa impossível. Uma jogada que arranca aplausos. Um lance que todo mundo comenta.
Mas uma única jogada não define toda a partida.
Você precisa continuar jogando.
Precisa manter a concentração, lidar com os erros e fazer escolhas a cada novo ponto.
Na vida, acontece algo parecido.
Uma conquista pode abrir portas.
Mas é a maneira como você se comporta depois dela que ajuda a construir sua reputação.
Um grande momento pode chamar atenção. Mas são as pequenas atitudes, repetidas ao longo do tempo, que revelam quem realmente somos.
E aqui quero fazer uma reflexão especialmente para os pais.
Quando perguntamos a um jovem onde ele deseja estar daqui a dois anos, precisamos estar preparados para ouvir uma resposta diferente daquela que gostaríamos.
Talvez o sonho dele não seja disputar um campeonato mundial.
Talvez queira ser professor, conquistar uma bolsa de estudos ou simplesmente continuar praticando um esporte que ama.
E isso não deveria ser visto como falta de ambição.
Cada pessoa possui suas próprias expectativas.
Nosso papel, como adultos, não deveria ser escolher todos os destinos por elas.
Deveria ser ajudar a compreender as possibilidades, reconhecer dificuldades e construir caminhos.
Porque existe algo ainda mais preocupante do que um jovem não saber aonde quer chegar.
É passar anos perseguindo um sonho que nunca foi realmente seu.
E, para quem está começando, quero deixar algo claro.
Não precisa decidir hoje o que fará pelo resto da vida.
E pode mudar seus objetivos ao longo do caminho.
Isso não significa fracasso.
Significa amadurecimento.
O plano não precisa ser uma prisão.
Ele precisa funcionar como uma referência que pode ser ajustada conforme você aprende, cresce e encontra novas oportunidades.
Talvez aquele jovem da nossa história descubra que não deseja ser o número um do mundo.
Talvez descubra que gosta de ensinar crianças.
Ou que sua maior alegria está em participar de uma comunidade que o acolheu e lhe proporcionou amizades verdadeiras.
Se essa descoberta for consciente, também representa uma conquista.
Porque nem todo sonho precisa terminar em um pódio.
Mas todo sonho merece ser compreendido por quem decide vivê-lo.
Agora imagine que encontramos aquele mesmo jovem novamente.
Só que, desta vez, ele consegue responder à pergunta sobre os próximos dois anos.
Ele sabe o que deseja conquistar.
Conversou com seus pais e com seu treinador.
Conhece suas principais dificuldades.
Definiu quais competições pretende disputar e o que precisa melhorar.
E, principalmente, compreende que haverá vitórias, derrotas e mudanças de caminho.
O que mudou?
Talvez ele continue tendo o mesmo talento.
A mesma raquete.
A mesma rotina.
Mas agora existe algo diferente.
Ele deixou de ser apenas passageiro das próprias expectativas e começou a participar conscientemente das decisões sobre seu futuro.
E talvez essa seja uma das maiores conquistas que o esporte pode proporcionar.
Não apenas ensinar alguém a vencer uma partida.
Mas ajudar uma pessoa a desenvolver responsabilidade sobre suas escolhas.
Nos episódios anteriores de Além da Marca, conversamos sobre a importância de ter algo a mostrar, sobre quem somos quando não estamos em quadra e sobre o valor das histórias que construímos.
Hoje, quero acrescentar mais uma ideia àquela conversa.
Não basta desejar ser reconhecido por algo. Precisamos construir, com nossas escolhas, os motivos para esse reconhecimento.
E essa construção não acontece de uma vez.
Acontece nos treinos, nos compromissos, nas decisões difíceis, na maneira como enfrentamos os erros e nas relações que desenvolvemos ao longo do tempo.
Por isso, quero terminar este episódio fazendo novamente a pergunta do começo.
Onde você quer estar daqui a dois anos?
Não precisa me responder.
Mas gostaria que você pensasse nisso.
E, quando encontrar uma resposta, faça mais três perguntas.
O que preciso conquistar para chegar lá?
Que passos posso dar com os recursos que tenho hoje?
E qual será minha primeira atitude concreta para começar?
Talvez você descubra que precisa treinar de maneira diferente.
Conversar com alguém.
Organizar seu tempo.
Rever prioridades.
Ou simplesmente decidir qual sonho realmente deseja perseguir.
O importante é compreender que não precisamos esperar o futuro chegar para começar a participar da sua construção.
Porque existe uma diferença entre deixar a vida acontecer e escolher conscientemente como queremos vivê-la.
E não estou dizendo que conseguiremos controlar tudo.
A vida vai continuar nos surpreendendo.
Haverá caminhos inesperados, oportunidades que não imaginávamos e resultados que não dependem apenas do nosso esforço.
Mas ter uma direção nos ajuda a reconhecer quando estamos avançando, quando precisamos mudar e até quando vale escolher outro destino.
No fim, talvez o maior aprendizado não seja sobre como vencer mais partidas.
Seja sobre aprender a fazer escolhas que deem significado à nossa caminhada.Porque, assim como no beach tennis, a vida não se constrói em um único ponto. Ela se constrói na maneira como escolhemos jogar todos os dias.

